Caminhos para se conectar à natureza



O primeiro artigo sobre o qual quero extrair alguns aspectos para refletir foi publicado há uma semana e aborda como melhorar a relação homem-natureza e, portanto, como ajudar a combater o aquecimento do clima e a perda de vida selvagem. Os autores chamam de ‘caminhos para a conexão com a natureza’, que são pautados em:

· Sentidos: perceber e se envolver ativamente com a natureza por meio dos sentidos. Simplesmente ouvir o canto dos pássaros, sentir o cheiro das flores silvestres ou observar a brisa nas árvores, na pele.

· Emoção: envolver-se emocionalmente com a natureza. Simplesmente perceber as coisas boas da natureza, experimentar a alegria e a calma que elas podem trazer e compartilhar os sentimentos sobre a natureza com outras pessoas.

· Beleza: Encontrar a beleza no mundo natural. Simplesmente reservando um tempo para apreciar a beleza da natureza e se envolver com ela por meio da arte, da música ou das palavras.

· Significado: Explorar e expressar como a natureza dá sentido à vida. Simplesmente explorando como a natureza aparece em canções e histórias, poemas e arte, ou celebrando os sinais e ciclos da natureza.

· Compaixão: Cuidar da natureza. Simplesmente pensar no que podemos fazer pela natureza e realizar ações que são boas para ela, como criar casas para a natureza, apoiar instituições de conservação e repensar nossos hábitos de consumo.


Praticamente todas as pesquisas sobre o tema passam por esses caminhos, além do conhecimento, por meio da educação. Esses caminhos apresentam formas abrangentes de relacionamento com a natureza. São intuitivos e amplos e fornecem uma direção simples e um foco em encontrar maneiras criativas de se envolver com os cinco tipos de relacionamentos que são positivos para a conexão com a natureza.


A conexão com a natureza é um construto psicológico relativamente recente (2004) e engloba como pensamos sobre a natureza, nossa relação afetiva com a natureza e até que ponto nos vemos como parte dela. Existe uma Escala de Conexão com a Natureza que já é validada para o português do Brasil e que tenho adotado em nossas pesquisas sobre esse tema também.


A conexão com a natureza é importante porque traz benefícios para os humanos e para a natureza; é um fator que melhora o bem-estar mental e aumenta os comportamentos pró-ambientais. A evidência dos benefícios para o bem-estar é tal que se argumenta que a conexão com a natureza é uma necessidade psicológica básica e tem sido considerada sua inclusão no Gallup World Poll (GWP), que é uma ferramenta para tomadores de decisão globais.


Esses caminhos, segundo os autores, podem ser aplicados em vários pontos, desde atividades individuais na natureza, a programas de engajamento com a natureza, projetos de infraestrutura e currículos escolares, por meio de intervenções que transformem as relações tradicionais de utilidade (ao fornecer alimentos e recursos essenciais para a sobrevivência e o progresso), controle, conhecimento e medo que o homem tem com a natureza.


Sim, esse tem sido um caminho trilhado pela humanidade há muito tempo, mas não necessariamente precisa ser assim. No Brasil, temos mais de 300 etnias indígenas que apresentam outro tipo de relação com o ambiente natural. Não estamos dizendo que temos que viver como eles, pois são culturas diferentes, mas porque não podemos aprender um pouco mais sobre como eles respeitam a natureza? Como eles têm feito para preservar essa relação tão diferente da que observamos no mundo moderno? Muitos povos indígenas já foram extintos, mas temos no nosso país um exemplo de resistência, mas vemos que nossa população está tão desconectada dos povos nativos como está da própria natureza. Pesquisas populacionais no Reino Unido (no Brasil não temos) indicam que o nível de conexão da natureza é relativamente baixo. A natureza significa cada vez menos na vida das pessoas. No entanto, argumenta-se que o caminho do significado fornece uma oportunidade para uma alavancagem profunda à medida que a cultura influencia valores e objetivos, o caminho do significado se refere a relacionamentos mais profundos com a natureza, o uso simbólico da natureza para representar ideias, que é o que presenciamos nas expedições científicas que fizemos em aldeias indígenas na Amazônia.


Os autores indicam que considerando a beleza, os sentidos e a emoção, exercícios simples como a observação de três coisas boas da natureza a cada dia durante 5 dias, durante dois meses, mostrou aumento significativo de conexão em relação a um grupo que não praticou o mesmo exercício. Essa abordagem também foi usada com sucesso em uma versão para smartphone que levou os moradores urbanos a notar as coisas boas da natureza. Esses caminhos têm sido aplicados em atividades e programas de experiência de visitantes, a fim de melhorar a conexão com a natureza em casas históricas, jardins e parques e podem ajudar a "ajustar" as atividades existentes ou inspirar novas ideias.


O desafio parece residir em encontrar evidências sobre a efetividade de diferentes tipos de intervenções baseadas na natureza. Programas tradicionais de aventura ao ar livre parecem não resultar em aumentos na conexão com a natureza (vamos conversar sobre isso em outro momento). É provável que isso se deva ao foco no desafio e na aventura na natureza, e não nas atividades dos caminhos. Nos parece, portanto, que a conexão com a natureza depende da nossa atenção e da nossa intenção, muito mais do que simplesmente a exposição à natureza, o que faz todo sentido se pensarmos que é necessário criar um relacionamento saudável entre o homem e a natureza, para benefício de ambos.


Cada intervenção pode explorar um ou mais caminhos e pensamos que sempre um deles tenderá a ser predominante. Tomemos como exemplo a fotografia. Para o fotógrafo, principalmente se ele estiver voltado à fotografia de conservação, facilmente poderá percorrer os cinco caminhos. Já para quem observa a fotografia, a experiência pode ser mais restrita. Mas a beleza e a emoção podem levar a uma experiência interna, o resgate de uma memória, um devaneio, e como nosso cérebro não distingue uma experiência real de uma imaginada, as possibilidades, ainda nessa situação, se ampliam. Tenho observado isso em um dos nossos estudos de imagens de natureza em pacientes oncológicos em tratamento quimioterápico.


Os autores finalizam a publicação enfatizando que o poder das emoções e da confiança em histórias compartilhadas tem sido usado para reunir milhões de pessoas, inclusive, para criar uma cultura de consumo e, por fim, nos desconectar da natureza, danificando o mundo natural no processo. No entanto, como espécie, nossa história é a natureza e, para um futuro sustentável, a natureza precisa ressurgir como a história humana por meio de valores sociais, estruturas sociais e políticas. Os caminhos para a conexão com a natureza apresentados fornecem uma estrutura para melhorar as relações homem-natureza nesse contexto.


A foto desse post foi feita em 2017, na Aldeia Bukuak, da etnia Matis, no Vale do Javari (AM), na Expedição Leininger. Fomos para lá para investigar a dor dos indígenas brasileiros, com suporte da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Em meio à selva, em meio à vida simples das aldeias visitadas, em meio a uma inocência humana que me parecia perdida no tempo, resgatei de forma inequívoca a importância da conexão com a natureza em mim. Sem dúvidas, cinco caminhos percorridos que se transformaram em uma estrada, sabidamente com direção (como a tartaruga do post anterior), mas sem fim.


Lis Leão

Primavera/2020


Referência:

M. Richardson, J. Dobson, D. J. Abson, R. Lumber, A. Hunt, R. Young & B. Moorhouse (2020) Applying the pathways to nature connectedness at a societal scale: a leverage points perspective, Ecosystems and People, 16:1, 387-401, DOI: 10.1080/26395916.2020.1844296

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